Relações Fronteiriças Entre Escola e Família Deixe um comentário

Frequentemente vemos o cabo de guerra que pais e professores participam quando o tema é aprendizagem. Enquanto os pais esperam determinadas ações dos professores, estes por sua vez depositam nos pais a responsabilidade do desempenho do aluno.

Afinal, de quem é essa responsabilidade? É o que vamos refletir neste texto onde convido todos a me acompanhar até o final.

Diferentes tipos de educação

Partindo do começo, é importante sabermos que a Escola surgiu com o objetivo de dar a educação que algumas famílias não podiam dar, e também, para ofertar uma condição igual para todos, e promover a democracia. O que podemos ver nos dias de hoje é que não foi assim que a ideia se desenrolou ao longo da história, pois infelizmente nos deparamos com notícias sobre desigualdades sociais e educacionais.

Ainda neste início, o que era passado pela família era o ofício, ou seja, o ofício do pai era passado para os filhos, e o convívio dentro do grupo familiar já se permitia este aprendizado. Foi quando no séc. XVIII, com a complexidade da vida social e aumento das indústrias com o desenvolvimento das cidades, surgiu a necessidade de sistemas de ensino que ensinassem uma formação geral de conhecimentos científicos para preparar o sujeito na sua entrada na sociedade e mercado de trabalho. Então, aqui já começamos a perceber uma separação surgindo entre família e escola, e o que antes era passado de pai para filho, passou a ser papel da Instituição Escola. A divisão ficou encarada como: a família transmite valores e a Escola ensina.

Devido à várias questões sociais, muitos adolescentes acabam tendo que escolher entre trabalhar e estudar.

Contudo, nos dias atuais, nós temos uma situação de maior complexidade ainda, em que a tendência é esses papeis de novo se encontrarem, havendo entre escolha e família uma integração cada vez maior de papéis entre ambas. Mesmo que tenham ensinos tão diferente, o importante a ser lembrado é que tanto uma quanto outra, tens ainda o mesmo objetivo: o ensinar.

Escola alinhada com a família

O que uma família ensina é diferente do que aquilo que se espera que uma escola ensina, porém ambas tem algo a ser transmitido e uma não pode dispensar a outra.

Como então, uma não “invadir” o espaço da outra?

Para este questionamento, vamos pensar no que existe dentro da tradicional divisão de trabalho educacional entre família e escola, ou seja, a escola surge para dar a educação que muitas famílias não podiam dar que é a educação intelectual, considerando que gradativamente a população mundial vai sendo alfabetizada e escolarizada. Então, podemos dizer que a escola tem uma função única por ser especializada num tipo de educação, existe todo um currículo pedagógico linear para que a alfabetização academicamente vá tomando lugar no desenvolvimento do sujeito.

A escola, por sua vez, munida deste currículo especializado no desenvolvimento acadêmico do sujeito, espera receber da família um sujeito pronto, que dormiu bem, que está bem alimentado, com boa saúde, motivado e querendo aprender. E também, juntamente com esta espera, a Escola por sua vez manda tarefas para a criança fazer em casa. Percebe-se o quanto é tênue a linha que delimita o que é de um e o que é do outro? Não é algo que dá para delimitar e impor limites rígidos.

Esta divisão e busca excessivamente exaustiva entre delimitação de territórios fomenta comentários do tipo: “a família educa e a escola ensina”. Este jargão tem origem ao contexto já mencionado aqui sobre a divisão tradicional que veio junto com o nascimento da instituição escola. Contudo, é uma constante a cobrança em cima dos professores de pais que delegam essa função de aprendizagem de valores para a escola. Por outro lado, os pais se queixam de quando a escola manda à elas uma função que é de ensino.

Sempre existem possibilidades de equilibrar essa relação.

Logo, o que restaria da função que é da família e/ou que a escola não daria conta de cumprir? Existe algo na função familiar que nenhuma outra instituição é capaz de realizar, que é a transmissão singular da dinâmica funcional de existência do ser no mundo que só existe dentro de cada grupo familiar e que não se encontra em outros lugares. Por outro lado, vemos no modelo contemporâneos das escolas, lugares de saber e desenvolver a cidadania, que tem muito do aprender valores.

Nesse quiproquó todo, o que nos fortalece e enriquece nossa discussão é a parte onde temos maturidade para distinguir o que pode ser somado e não dividido em forma de delimitação de território. Esse jogo de empurra anula qualquer possibilidade de desenvolvimento da criança que está em idade escolar e que por algum motivo está com dificuldades para aprender. Enquanto tentam detectar onde está o núcleo do não-aprender a fim de responsabilizar o lado que “ocasionou” (entre aspas porque não é algo ocasionado, mas o jogo de empurra deixa transparecer a ideia de que seja), o não-aprender da criança está por sua vez sendo muito prejudicado pelo simples fato de que, enquanto tentam encontrar o responsável, a criança está perdendo um importantíssimo tempo dentro do seu desenvolvimento não sendo olhada e investida da forma como deveria ser.

Ao iniciar sua vida escolar, a criança já traz consigo uma dinâmica diante da possibilidade de conhecimento.

Quando uma criança é concebida ao seio de seu grupo familiar, a forma como ela é acolhida e investida já se estabelece uma relação com o conhecimento. Não estamos dizendo aqui do conhecimento objetivo, mas sim daquele que é de ordem subjetiva, isto é, seus impulsos e fantasias. De que forma isso se dá? Podemos destacar aqui, por exemplo, a condição que os pais têm de responder a curiosidade da criança sem excesso de repressão. Muitas vezes os pequenos surgem com perguntas desconcertantes e que por alguma condição subjetiva, os pais ao perceberem suas limitações a ofertarem respostas para tais perguntas, dizem coisas aos filhos que muitas vezes são perigosamente recheadas de “cortes-cognitivos”, isto é, a impossibilidade de resposta corta este viés curioso da criança e consequentemente todo seu processo de desenvolvimento cognitivo e criativo que será base para o início de todo o seu percurso de desenvolvimento vida a fora.

Partindo desta nossa reflexão, convido vocês a refletir o quanto não importa onde se encontra a fronteira e a praça de pedágio desta estrada.

O que importa sem dúvida é como esta criança está sendo cuidada, tanto pela família quanto pela escola.

E agora deixo a vocês uma provocação em forma de questionamento: em que lugar a criança é inserida por primeiro?

Obrigada pela companhia até aqui! Espero que tenham tido uma boa leitura e que estas palavras possam ecoar por dias em seus léxicos!

Deixe uma resposta